Cultura / Fortaleza

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Viagem no tempo com interação


Fernando Brito
Especial para o Diário do Nordeste

Praias para os mais variados gostos e estilos oferecidas em Aquiraz agora fazem uma aliança com a cultura e arte locais.

Primeira capital do Ceará, Aquiraz guarda em suas raízes as tradições do colonizador europeu e fortes indícios da presença indígena e africana

O visitante passa a saborear não apenas a ótima cachaça do lugar. Bebe na fonte da cultura do município. História e construções antigas revitalizadas dão novos sabores à visita a primeira capital do Ceará.

É no perímetro central de Aquiraz, em torno da Praça Cônego Araripe, que o visitante começa a viagem no tempo. Ali, encontram-se as principais edificações de interesse histórico-arquitetônico, entre elas, a Igreja Matriz, o Museu Sacro e o antigo Mercado da Carne, hoje Mercado das Artes.

A Igreja Matriz São José de Ribamar, erguida no século XVIII, apresenta ecletismo no estilo, predominando traços barrocos e neoclássicos. Detalhes originais impressionam pela beleza e requinte, como as três grandes portas almofadadas da entrada principal, o púlpito de madeira lavrada e os painéis pintados no forro da capela-mor, provavelmente obras de índios catequizados.

Junto à igreja fica o Museu Sacro São José de Ribamar, espaço nobre para a história e a arte sacra do Ceará, que funciona na antiga Casa de Câmara e Cadeia. Inaugurado em 1967, o museu possui acervo de mais de 500 peças de arte sacra, dos séculos XVII, XVIII e XIX.

Na mesma área fica o antigo Mercado da Carne, hoje Mercado das Artes. Construção do século XIX, impressiona pela singular técnica de construção, com o uso da carnaúba e tijolo adobe (tijolo cru). O epicentro, área central, era o local de comercialização da carne. Ali, a harmonia geométrica da armação do telhado revela o caráter arrojado do estilo.

Durante anos, pontos comerciais situados na parte externa, foram o coração do comércio da cidade. O prédio foi tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, em 1988. Atualmente, abriga uma espécie de “centro cultural”, onde funcionam oficinas de artes e ofícios e a biblioteca pública do município.

Outra construção de visita obrigatória é a Casa do Capitão-Mor, raro exemplar do casario setecentista do Ceará. Conhecida também como Casa da Ouvidoria, o edifício é feito com paredes de pau-a-pique, reforçada com amarras de couro de boi, referência material ao ciclo econômico das charqueadas, predominante na região no século XVIII.

Circulando pelo centro da cidade, o visitante ainda confere a riqueza da aristocracia portuguesa de outrora em suntuosos casarões que remetem aos modelos arquitetônicos de Portugal e do sertão.

Para requalificar a viagem no tempo em Aquiraz e incrementar o turismo cultural, o centro histórico está sendo recuperado. O trabalho envolve recursos na ordem de R$ 836 mil, oriundos do Programa de Desenvolvimento do Turismo.

As obras foram iniciadas em meados de agosto e têm prazo de duração previsto de 120 dias. Com a chegada da alta estação, o visitante já poderá conferir algumas edificações históricas em sua imponência.

Mão-de-obra

Paralelo à revitalização do Centro Histórico, Aquiraz revela a preocupação com a qualificação da mão-de-obra local para receber visitantes.

A inauguração do Centro Técnico de Turismo, na área da Casa Amarela, sede do governo municipal, virá preencher a lacuna. Na moderna estrutura estará disponível o que há de mais moderno para a capacitação em turismo e hotelaria e de auditório com 300 lugares.

O Centro Técnico conta com dois laboratórios de informática, um de gastronomia e outro de hotelaria.

Serão atendidos 240 alunos por turno. As aulas serão ministradas por técnicos do Senac-CE. A maioria dos cursos serão oferecidos gratuitamente.

Um dos primeiros equipamentos a utilizar a mão-de-obra formada no local é o Complexo Hoteleiro Aquiraz Riviera, com previsão de inauguração do primeiro hotel, denominado Dom Pedro Laguna, em novembro do próximo ano.

A arte perpetuada em pequenos fios entrelaçados

Elas são doces e têm mãos de fada. Há quem acredite que sua arte tenha nascido do simples observar do beijo das ondas nas areias. A rendeira teria querido imitar a cena da natureza na textura e desenho de seu trabalho. Opiniões à parte, hoje, elas são referência em Aquiraz. Vê-las realizando seu ofício é como ver nascer a arte em pequenos fios entrelaçados. O observador se encanta e aprende a “arte” da paciência para a vida. No silêncio do ofício, as rendeiras mostram que fazer o melhor exige atenção e dedicação.

Diz o ditado popular que “onde há rede, tem renda”. A bem da verdade, a esposa do pescador é, geralmente, uma rendeira e esbanja habilidade nas mãos e criatividade. Ante a vida difícil, a mulher lança mão dessa habilidade para reforçar a renda familiar.

Contam os historiadores que a renda foi trazida para o Brasil pelas mulheres portuguesas, sobretudo as açorianas. O fato é que ganhou seu espaço no Ceará, sobretudo à beira-mar, entre mulheres simples. Na Prainha e na praia do Iguape, em Aquiraz, tornou-se parte do cotidiano e eternizou-se, passando de mãe para filha.

Na visita às rendeiras, o turista se depara com grandes ou pequenas almofadas sempre à frente delas, que lançam um sorriso largo e voltam ao trabalho. A renda é a vida dessas mulheres. Um desenho feito em papel está posto sobre as almofadas, crivado de furos, onde se espetam alfinetes. Com as mãos hábeis, as rendeiras tramam os fios, os alfinetes mudam de posição. A linha é enrolada em bilros de madeira.

Em pouco tempo e após muitos dias remexendo os bilros, dependendo da peça desejada, as rendas se apresentam nas mais variadas formas, algumas mais simples, outras mais elaboradas. Peças para cama, mesa e banho e moda praia são maioria. O turista leva as peças mundo afora. A mulher simples faz sucesso, conquista reconhecimento, mas a vida segue o mesmo ritmo.

Na Prainha e no Iguape, as rendeiras estão organizadas em associações na tentativa de ver seu trabalho chegar mais longe e ganhar mais valor, contribuindo para melhorar o ganho mensal. O Centro das Rendeiras da Prainha tem 43 artesãs. No Iguape, são 54, reunidas no Centro das Rendeiras Miriam Porto Mota. Mas, há muito mais artesãos espalhadas pelas duas praias.

A venda das peças ainda é feita diante do freguês, embora o apoio oficial venha contribuindo para que as trabalhadoras ganhem os mercados interno e internacional. Mas, o caminho é longo. Ainda são poucas as grandes encomendas de peças. Elas também enfrentam os atravessadores e quem leva os turistas aos pontos de venda. Têm que dar comissão.

Mas, as rendeiras resistem e se mantém fiéis ao ofício aprendido com a mãe ou a avó. “É o meu ofício e me orgulho dele. Apesar das dificuldades, ainda dá pra viver do que ganho”, diz a rendeira Maria Cunha, a “Santa”, 72 anos. Dona Maria Firmina, a ´Fiinha´, 79 anos, é a rendeira mais idosa na Prainha. “E ainda vou ficar aqui muito tempo”, garante, mostrando as peças.

Mas, por que todas as rendeiras têm apelidos e sempre nomes curtos? Elas não sabem dizer. Talvez porque muitas se chamam Maria, mas a intimidade que surgiu entre elas, graças ao trabalho com a renda, é o motivo maior. O apelido exprime carinho e atenção.

No momento, as rendeiras da Prainha apresentam seu trabalho de forma improvisada, num terreno na Rua Desembargador Péricles Ribeiro, próximo ao Centro das Rendeiras, que passa por completa reforma. O local atual para o comércio não é apropriado, mas não falta beleza: renda, bordado, labirinto e lembranças do Ceará, além da própria rendeira produzindo seu trabalho. As artesãs estão ali, diariamente, das 8 às 17 horas. O novo centro deve ficar pronto somente em janeiro próximo.

Na praia do Iguape, elas se reúnem no Centro das Rendeiras, erguido à beira-mar. O número de visitante não é o esperado. Falta divulgação. Ali, as rendeiras dão um show de criatividade e cores. “Agora, que as férias estão chegando, estamos esperando os visitantes com muita coisa bonita pra mostrar. Os preços variam de R$ 2 até R$ 1.200,00″, assegura a presidente da Associação das Rendeiras Miriam Posto Mota, Raimunda Vicente da Costa, a “Neci”. O Centro fica aberto das 9 às 17 horas, diariamente.

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